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chef’s table – temporada 01

Há alguns meses o Netflix lançou uma série chamada Chef’s Table. Eu vi todos os 6 episódios muito rápido e depois fiquei dias e mais dias pensando em tudo aquilo. E agora que eu tenho um lugar pra escrever além do blog, eu resolvi escrever sobre isso, porque eu acho que se você gosta de comida você deve ver também.

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A primeira – e por enquanto única – temporada do documentário, produzido pelo próprio Netflix, conta com seis episódios apenas, cada um dedicado a um chef super renomado e merecedor de algumas estrelas Michelin. Gente fina que só. O primeiro episódio é dedicado a Massimo Bottura, dono e chef do Osteria Francescana em Módena, na Itália, ganhador em 2015 do título de segundo melhor restaurante do mundo. Massimo desconstruiu a comida italiana, essa cozinha de tantas raízes e apegos e tradições, e por isso foi durante muito tempo foi chamado de traidor pelos críticos gastronômicos. Parece que ainda não tinham entendido a sua genialidade, até que com apenas uma crítica boa a mesa virou e seu restaurante lotou. Ele conta que era o caçula dos irmãos, que viviam querendo bater nele, e por isso se escondia debaixo da mesa onda a sua nonna fazia massa fresca, e ia comendo pedaços de tortellini cru que caíam lá de cima. É a construção do mito, e quantas centenas de vezes ele já deve ter contado essa história para responder à pergunta: quando você se interessou pela cozinha? É lúdico. Ele quer levar isso às pessoas, esse sentimento de infância, essa memória afetiva. Um de seus pratos mais famosos, Oops, I dropped the lemon tart foi criado quando uma das duas últimas tortas de limão se espatifou logo antes de ser servida.

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Depois dele seguem os episódios sobre Dan Barber, chef do Blue Hill Farm, Francis Mallmann do Patagonia Sur; Niki Nakayama no n/naka, Ben Shewry do Attica e Magnus Nilsson do Fäviken. Cada episódio é uma dança. A fotografia, a direção, o roteiro, a trilha sonora, os chefs, as comidas, tudo te abraça e te leva para um universo lindamente encantador. Ao passar dos minutos você está completamente envolvido com aquela história, aquele mito, aquela comida que você provavelmente nunca irá experimentar, mas sonhará para todo o sempre. É como alta costura – você pode nunca usar um Valentino, mas você sabe qual o seu papel no mundo da moda.

Dan Barber é um grande defensor do “da granja à mesa”, da produção rural e da valorização dos ingredientes, assim como o questionamento da nossa responsabilidade com o meio ambiente e com o planeta. Ele questiona o nosso modelo de consumo e produção, e a que ponto isso nos trouxe. Na sua fazenda Blue Hill – de onde também saem os ingredientes de seus pratos –, são criados porcos, vacas, cabras, galinhas, cada um vindo de uma vez, para contribuir de sua forma com a melhoria do sistema produtor como um todo. “Quando se mergulha nessas relações simbióticas, você só vai melhorando o capim, e ao fazer isso, melhora-se cada mordida que as vacas leiteiras dão, então você melhora o leite. Apoiar a melhoria contínua do sistema como um todo é e meta pelo sabor melhor. É tudo a mesma coisa.”, diz Barber.

E o Magnus Nilsson, uau! Uma cozinha nórdica nos confins da Suécia, que esse ano ficou em 25º lugar nos 50 melhores do mundo.

Então se você acha que este é mais um programa de culinária, vai perceber o equívoco nos primeiros minutos. Não é. É sobre como essas pessoas pensam a comida e sua relação com ela. Como elas vivem e respiram comida, como a comida em si é sua vida. Como lançam tendências, mudam mercados. Como produzem verdadeiras obras de arte mas ao mesmo tempo fazem com que isso pareça tão simples. Como quebram paradigmas e inovam em mercados tão competitivos e tão tradicionais. Como criam novos modelos usando técnicas milenares. Como eles transmitem uma mensagem, uma ideia, um conceito, uma filosofia através da comida. Questionadores, criativos, artistas. É no mínimo inspirador.

Eu gostei igualmente dos seis episódios, mas os que mais me tocaram foram do Massimo Bottura, do Dan Barber e do Magnus Wilsson. Não tenho uma explicação clara, mas parte de uma admiração enorme e por onde eu começaria se pudesse comer em qualquer desses restaurantes. Quem sabe um dia? Por enquanto a gente fica na torcida de mais temporadas!

* post publicado no blog sonar

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